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Valores como respeito à diversidade e solidariedade norteiam educação inclusiva
"Temos o direito a sermos iguais quando a diferença nos inferioriza. Temos o direito a sermos diferentes quando a igualdade nos descaracteriza”
Boaventura Souza Santos
Toda criança tem o direito de aprender. Toda criança tem direito a uma educação de qualidade. Os princípios que norteiam o movimento por um ensino público de qualidade são os mesmos que orientam o movimento pela educação inclusiva.
Os defensores da educação inclusiva partem do princípio de que as crianças com deficiência assim como as demais têm o direito de freqüentar as salas de aula do ensino regular e conviver com outras da mesma idade.
“Muitas pessoas passam a vida inteira fazendo terapia ocupacional e nunca são desafiadas a aprender. Qualquer criança precisa ser desafiada para crescer”, salienta o coordenador do projeto Diversa, do Instituto Rodrigo Mendes, Augusto Galery.
“Essa convivência tem um duplo sentido: a criança com limitações aprende muito rápido quando desafiada pelos colegas. Os médicos dizem que muitas vezes anos de fisioterapia não trazem o que essa convivência traz”, afirma a consultora do Instituto Paradigma, Luiza Pereira.
“A criança sem deficiência aprende a ser solidária, a perceber as características do outro. E com isso, também aprende a lidar com as suas próprias limitações, a achar estratégias para superá-las ou aceitá-las. Esse aprendizado é muito importante”, complementa Luiza.
Além disso, a inclusão dos alunos com deficiência no ensino regular é entendida como um primeiro passo para constituição de uma sociedade verdadeiramente democrática e que respeita e valoriza a diversidade humana, em todas as suas dimensões. “Os alunos hoje que estão estudando com alunos com deficiência acabam aprendendo muito rapidamente como lidar com isso e não criam uma série de preconceitos que nós, adultos, que fomos criados isolados dessas pessoas acabamos tendo”, acredita Galey.
Entretanto, em uma sociedade cada vez mais competitiva e individualista, a incompreensão e o desconhecimento em relação à educação inclusiva – que trabalha valores como solidariedade e respeito ao outro – ainda gera resistências de educadores, de gestores, de pais de alunos que acham que seus filhos serão prejudicados e dos próprios familiares das crianças com deficiência, que acham que a educação especial é a mais adequada nesses casos.
“Precisamos pensar que sociedade a gente quer construir no futuro. A competição está chegando a um ponto destrutivo, em que as pessoas não criam mais vínculos. Por isso é necessário que a escola consiga dosar o que é estar preparado para o mercado de trabalho e o que é simplesmente ser predatório, avançar sobre o outro”, ressalta o especialista do Instituto Rodrigo Mendes.
Para Galery, a despeito disso, é nessa mudança gradual de atitude da sociedade, que tem se caracterizado por uma postura muito mais receptiva diante de alunos com deficiência nas escolas regulares, que ele considera um dos maiores avanços no campo da educação inclusiva nos últimos anos.
Segundo dados do Censo Escolar 2010, 68,9% dos alunos com deficiência matriculados na educação básica estão inseridos no ensino regular. Cresce a cada ano o número de alunos com deficiências freqüentando a escola, especialmente a rede pública, enquanto o volume de matrículas nas escolas especiais cai paulatinamente (veja gráfico).
“A gente ainda tem esse olhar da caridade, de achar que precisamos proteger essas crianças. É preciso entender que essas crianças não precisam da nossa pena. Elas precisam de um esforço real de educação”, salienta.
Foco nas potencialidades e não nas limitações
A compreensão de que a escola deve estar apta para atender e promover o desenvolvimento de todas as crianças – independentemente de sua cor, idade, origem social, de suas características e deficiências – implica uma mudança profunda na prática dos educadores, formados para lidar com a homogeneidade dos alunos e não o inverso.
Segundo Luiza Pereira, do Instituto Paradigma, a premissa que deve nortear o trabalho do professor é a de que todos os alunos são capazes de aprender, tendo como foco as potencialidades de cada um. “O olhar deve ser para o que o aluno consegue, no que ele é bom, pelo que ele se interessa. O professor tem que identificar essas características e ir adequando a sua prática de ensino de modo a contemplar essa multiplicidade. As crianças percebem isso muito rápido e ajudam o colega”, explica.
A inclusão educacional do aluno com deficiência se dá principalmente através da metodologia de ensino e não por meio da adaptação ou simplificação do currículo. “O professor deve trabalhar com atividades diversificadas com diferentes graus de abrangência do currículo, incentivando os alunos a passar por todas elas. Às vezes, eles podem não chegar ao mesmo grau de entendimento por meio das letras, mas chegam por meio de outras linguagens: pela arte, pela poesia, pela música, pelo desenho”, exemplifica Luiza.
Essa versatilidade do professor em adaptar a sua didática à multiplicidade da turma – e um dos maiores desafios para quem atua nessa área – é apontada como um ganho para todos os alunos. “A nossa aposta é que a educação inclusiva consegue trazer mais qualidade para qualquer aluno, mesmo os que não possuem nenhuma deficiência”, acredita Galery. “A educação no modelo tradicional tem como foco um aluno muito específico, que aprende a partir da fala, do ouvir o outro. O problema é que cada criança aprende de um jeito. Não é à toa que tem tanta evasão na escola. Uma educação inclusiva no âmbito nacional pode ajudar muito a manter os alunos na escola e aumentar o aprendizado dessas crianças”.
“Se a metodologia busca até aquele aluno que tem uma limitação, quantos outros alunos não se beneficiam?”, indaga Luiza.
Fabiana Hiromi
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