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Série contextualiza conquistas educacionais de países mais bem colocados
O que os países mais bem colocados no ranking do Pisa (Programa Internacional para Avaliação de Estudantes) têm em comum? O que os leva ao topo? E que especificidades caracterizam cada um desses sistemas? Em busca de respostas para essas questões foi produzida série “Destino: Educação”, iniciativa do Canal Futura, em parceria com o Serviço Social da Indústria (Sesi).
O programa baseou-se nos resultados do último ranking do PISA (2009) para escolher os locais retratados. Foram selecionados: Xangai, a número um do mundo; Finlândia, o número três; e Coreia do Sul, o número cinco; Chile, o melhor colocado da América Latina, e Canadá, que se mantém entre os sete melhores. Embora apontado como um dos que mais evoluíram na última década, o Brasil ocupa a 53ª colocação.
Segundo a presidente da Comunidade Educativa Cedac, Beatriz Cardoso, que atuou como consultora da série, o programa busca “desmistificar o ranking e contextualizar as conquistas de cada país”. Ao trazer entrevistas com estudantes, professores, gestores e especialistas em educação, é possível ter um panorama dos acertos e fragilidades de cada sistema a partir da perspectiva dos atores nele envolvidos.
Assim, experiências educacionais como a da Coreia do Sul, frequentemente citadas como modelos a serem seguidos, revelam-se não tão inspiradoras em alguns aspectos. O episódio sobre o país mostra que os alunos, em função de uma carga excessiva de tarefas e provas e por forte pressão da família por um elevado desempenho escolar, têm poucas horas de sono, passam por forte estresse, levando até a casos de suicídio.
“As conquistas dos estudantes coreanos são baseadas em uma competição implacável. A sociedade,m os pais, os professores, todos torturam os estudantes para que cheguem mais e mais alto. Muitos estudantes cometem suicídio porque não conseguem por não conseguirem atingir as expectativas dos pais e as suas próprias expectativas. Eles não estão felizes”, comenta no programa o diretor do Instituto de Pesquisa Educacional Hanyang University, Yun-Kyung Cha.
Em Xangai, representantes do próprio governo reconhecem que a qualidade do ensino de Xangai não representa a qualidade do ensino de toda a China. Atribuem o bom desempenho no Pisa a uma convergência entre as competências e habilidades avaliadas na prova (desempenho em linguagem, matemática e ciências) e os pontos fortes do modelo educacional adotado na cidade. “Se o Pisa testasse criatividade, potencias pessoais, talvez não estivéssemos no topo. O Pisa testa apenas aquilo no qual somos fortes”, observa Zhang Minxuan, vice-diretor do Xhangai Education Commission.
Em debate promovido pelo Canal Futura na sede do Cenpec, em São Paulo (SP), Anna Penido, ex-coordenadora do escritório do Unicef em São Paulo, lembrou que é interessante considerar como os países vêm conseguindo dar respostas às demandas do mundo contemporâneo – aspectos não mensurados pelo Pisa. Bia Cardoso observa que, na série, é possível notar que essa é uma preocupação presente no discurso oficial da China e da Coréia.
Pontos comuns
A despeito das particularidades de cada país, a série mostra que é possível observar pontos em comum entre os sistemas educacionais mais bem sucedidos na avaliação internacional, dando pistas de quais seriam aspectos essenciais para oferta de um ensino de qualidade.
Um primeiro ponto seria a valorização social do professor, isto é, um reconhecimento por parte de toda a sociedade da importância do papel desempenhado pelo docente, perceptível em termos de remuneração, de prestígio e na alta procura dos cursos de formação de professores. Há um grande investimento ainda por parte dos governos na formação inicial e continuada dos professores.
Na Finlândia, por exemplo, os professores são selecionados entre os melhores quadros e o curso é mais concorrido que o de Medicina. Na Coreia do Sul, os concursos para seleção de docentes são bastante disputados, chegando a 40 candidatos por vaga para os interessados em lecionar no Ensino Médio.
Um outro tema presente em todos os episódios da série é a relação escola-família. Percebe-se uma forte correlação entre participação da família no cotidiano escolar e desempenho dos alunos/qualidade da educação. Em Xangai, um fator que contribui para isso é o fato de muitos estudantes serem filhos únicos, o que possibilita que os pais tenham um acompanhamento muito próximo de seus estudos. Qiu Hua Hui, mãe de um dos jovens retratados na série, conta que costuma visitar a escola a cada duas ou três semanas para conversar com os professores e o diretor. No Canadá, cada escola conta com um conselho de pais, que apoia e orienta as decisões do diretor. Na Finlândia, existe uma Associação Finlandesa de Pais, fundada há 104 anos – antes mesmo da independência do país.
O que se observa nos países retratados na série é que o profundo envolvimento da família na educação se insere dentro de um contexto maior de valorização da educação por toda a sociedade. “Temos uma história longa e uma crença de que a educação mudará seu destino”, afirma Zhang Minxuan, da Shanghai Education Comission. O diretor de Planejamento da Universidade de Helsinki faz no episódio sobre a Finlândia comentário na mesma linha: “Se olharmos para a História, vemos que isso [a valorização da educação] tem sido fator de mobilidade social, o único caminho eficaz de desenvolvimento social”.
“Um elemento-chave é a construção dessa base cultural”, acredita Bia. Para ela, a série traz luz para aspectos como liberdade, coletividade e educação como responsabilidade de todos. “A disciplina é uma conquista cultural”, acredita, mencionando que no Chile, por exemplo, essa é uma questão já equacionada.
Na avaliação da especialista Maria Helena Guimarães Castro, que atuou como consultora da série, no Brasil, a relação escola-família, mesmo entre as elites, ainda é muito distante. “A valorização da educação não está entranhada no tecido social”, pensa.
Especificidades
Embora concebidas dentro de contextos específicos, algumas soluções e políticas desenvolvidas pelos sistemas retratados podem servir de modelo ou inspiração para a formulação de respostas próprias para resolução de problemas e desafios enfrentados no Brasil.
Um ponto interessante de ser observado é como os sistemas mais bem colocados no Pisa vêm lidando com a questão da equidade e diversidade nas escolas. Em grande medida, um sistema eficiente tem como premissa assegurar condições para que todos os alunos aprendam, independentemente de sua origem social, raça, gênero, credo, e respeitando seus tempos, potencialidades e dificuldades.
No Canadá, país que recebe um grande fluxo de imigrantes,o sistema vem conseguindo dar conta dessa diversidade cultural por meio de uma sólida formação inicial e continuada de professores, centrada no aprendizado do aluno, combinada a uma série de políticas de apoio aos novos alunos, que vão desde reforço escolar até integração à cidade.
“Quando um professor tenta ensinar uma mesma coisa para toda a classe, há uma grande chance de um terço já saber, um terço aprender, e um terço não. Então, dois terços dos alunos estão desperdiçando seu tempo. Portanto, diferenciar as formas de ensinar é fundamental e acho que para fazer isso temos que ir fundo em termos de personalização”, afirma Christopher Spence, do Toronto Board of Education.
No plano da gestão escolar, a China apresenta soluções simples e inovadoras, como a política que determina que um distrito mais avançado em termos de resultados ajude outro que apresenta deficiências. “Encorajamos as escolas modelo a ajudar as escolas fracas. É só deixá-las ajudar umas às outras, como uma irmandade”, explica Zhang Minxuan.
Clique aqui para assistir ao trailer da série Destino: Educação.
O Canal Futura disponibilizou todos os episódios da série no You Tube.
Arte: Guilherme Santos / Texto: Fabiana Hiromi
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