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Universo paralelo

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Publicada: 17/04/2012

Representantes de iniciativas de incentivo à leitura falam sobre o desafio de formar leitores

Painel da tardeO encontro “Por um país de leitores: mobiliza, Brasil!”, realizado pela Fundação Itaú Social com a coordenação técnica do Cenpec na última quarta (11), em São Paulo, reuniu, no palco e na plateia, representantes de diversas iniciativas focadas no incentivo à leitura encabeçadas por diferentes atores: organizações da sociedade civil, fundações empresariais, poder público.

Se por um lado a pluralidade e variedade de experiências indicam a mobilização da sociedade em torno do tema; por outro, contrastam com os resultados da 3ª edição da Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, que revelam um quadro desalentador e indicam um longo caminho ainda a ser percorrido.

A coordenadora do Prêmio Viva Leitura, da Fundação Santillana, Lourdes Atié, contou sobre a experiência da premiação, que já se encontra na sexta edição. “O prêmio dá a possibilidade de constatar que há um universo paralelo no Brasil”, relatou. Segundo ela, um levantamento informal feito junto às iniciativas premiadas mostrou que a quase totalidade delas tiveram continuidade.

O representante do SescSP, Francis Manzoni, falou sobre os programas e ações da instituição voltados para leitura. Além de doze bibliotecas fixas, espalhadas por diferentes unidades, o Sesc mantém outras 4 volantes, batizadas de BiblioSesc. Segundo Manzoni, as bibliotecas móveis realizam, em média, 4 mil atendimentos por mês.

Além de democratizar o acesso ao livro, o Sesc mantém como política proporcionar o contato com o texto literário e a palavra para além do livro, através de exposições, encontros com escritores, peças de teatro, apresentações musicais, entre outros. “A literatura é trabalhada em conjunto com outras linguagens”, explicou.

Alfredo Manevy e Sonia MadiA coordenadora da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro (iniciativa do Ministério da Educação em parceria com a Fundação Itaú Social, coordenada pelo Cenpec), Sônia Madi, também foi convidada a dar o seu relato, falando sobre o desafio de se comunicar com 140 mil professores inscritos no concurso e aproximá-los da leitura, de modo que ela faça sentido para eles. “Nosso esforço é em como seduzi-los”, afirmou. Para ela, “a figura do mediador é essencial, porque é ele quem vai atribuir sentido ao texto”.

Sylvia Guimarães, fundadora da Associação Vagalume, contou um pouco do projeto piloto que lançou as bases do trabalho desenvolvido pela instituição. Tratava-se de uma expedição pela Amazônia, que se propunha a aprender com as comunidades locais e deixar como contribuição
um conjunto de livros para criação de uma biblioteca, acompanhada de uma formação de mediadores de leitura. “Eu era uma leitora mediana, que escolheu a leitura como estratégia de aproximação com comunidades do interior do país”.

Na sua opinião, “formar leitores é [um trabalho] de pessoa para pessoa”. “Como dizia José Mindlin, é preciso inocular o vírus da leitura”, parafraseou. “Num país como o Brasil, dessa dimensão, precisamos de um exército de pessoas”, complementou.

Como contribuição para o debate, Sylvia propôs uma reflexão sobre qual o papel da cada um dos atores – poder público, sociedade civil, iniciativa privada, salientando a necessidade de uma articulação maior entre eles.

Esse também foi um ponto destacado na fala do secretário adjunto de Cultura do Rio Grande do Sul, Jéferson Assumção. “Não será um só ator que irá resolver o problema”, destacou, lembrando que foram eleitos em diferentes momentos diferentes responsáveis – o professor, a biblioteca, a família – pelo problema da falta do hábito da leitura no país. Para Manevy, “são as políticas públicas que deveriam propor, definir o papel de cada um dos atores”.

Biblioteca Pública Estadual de Rio BrancoO ex-secretário de Cultura do Acre, Antonio Alves Leitão, deu seu depoimento sobre a Biblioteca Pública de Rio Branco, considerada modelo. O sucesso de público conquistado pelo equipamento, segundo ele, é resultado de um longo caminho. “A biblioteca não está sozinha. Faz parte de uma rede de muitas outras”, explicou. “É possível avançar com projetos de leitura se avançarmos nas outras áreas também. Houve no estado um movimento de valorização da cultura”, complementou. Leitão criticou ainda a concepção de cultura enquanto “adereço da educação” e propôs: “Talvez se a educação for colocada como parte da cultura, ela deixe de ser essa coisa chata e burocrática que é hoje”.

O depoimento do ex-secretário foi respaldado por Assumção. “Quem conhece a Biblioteca de Rio Branco fica encantado”, afirmou. “Ela é especial: a sua arquitetura, a maneira como as crianças se sentem em casa ali...”, descreveu.

A pesquisadora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Maria Zélia Versiani, destacou a importância do movimento ao redor da biblioteca e a constituição de uma nova concepção de leitura. “Por muitos anos, cultivou-se a leitura como um ato solitário. É interessante pensar como os projetos de leitura devem incluir essa questão da sociabilidade e da formação de uma comunidade leitora”, observou.

Maria Alice Armelin encerrou o encontro, relatando sua experiência à frente do projeto Entre na Roda – iniciativa da Fundação Volkswagen coordenada pelo Cenpec que já soma 10 anos de estrada. Mais de 4.500 mediadores de leitura foram formados pelo projeto. “Trabalhamos com a escola como centro irradiador do gosto pela leitura e da formação de leitores”, explicou.

Em um esforço de síntese do que foi discutido no encontro, Alfredo Manevy destacou algumas reflexões disparadas pelos debates promovidos ao longo do dia. “Mobiliza” se estabelece aqui como uma aliança política. Sem essa complementariedade não será possível superar os números da pesquisa”. E complementou: “Educação e cultura tem que ser pensadas dentro de um projeto de país. Se não, as ações ficam muito restritas e não reverberam como deveriam”.



Fabiana Hiromi
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