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Formar leitores vai além da garantia do acesso

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Publicada: 17/04/2012

Essa foi uma das conclusões do encontro “Por um país de leitores: mobiliza, Brasil!”

Painel da manhãO descompasso entre a posição de sexta maior economia do mundo e a condição de país onde 55% da população não têm o hábito da leitura foi destacada pelos palestrantes do encontro Por um país de leitores: mobiliza, Brasil!, promovido pela Fundação Itaú Social e coordenado pelo Cenpec. Realizado na última quarta (11), no Sesc Vila Mariana, em São Paulo (SP), a iniciativa reuniu representantes do poder público, da academia e de organizações da sociedade civil cujas ações são voltadas para formação de leitores.

Se antes a falta de acesso ao livro era apontada como a principal causa dos baixos índices de leitura no País, os dados recentes mostram que esse é um problema praticamente superado. O grande esforço empreendido pelo poder público, especialmente o governo federal, na abertura de bibliotecas públicas, e pela sociedade civil organizada, no desenvolvimento de projetos focados na democratização do acesso ao livro vêm surtido efeito.

Primeira convidada do painel que ocupou o período da manhã, a gerente de projetos do Instituto Pró-Livro, Zoara Faila, fez uma breve apresentação dos resultados da 3ª edição da Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. Questões relacionadas à falta de acesso ao livro – como preço do livro ou ausência de livrarias ou bibliotecas próximas – foram apontados por apenas 4% dos entrevistados como justificativa para a não-leitura. O desinteresse aparece como a principal causa (78%).

Os dados relacionados a bibliotecas indicam que as estratégias para formação de leitores devem ir muito além da garantia do acesso. Embora 67% dos entrevistados declarem a existência de uma biblioteca pública no bairro ou na cidade em que moram e, entre esses, 71% a classifiquem como de “fácil acesso”, apenas 24% dos entrevistados afirmaram freqüentar esse equipamento e somente 12% costumam ler em bibliotecas.

Uma possível explicação para essa “impopularidade” das bibliotecas está na representação desses espaços no imaginário da população. A maioria as associa a lugares para estudar (71%) ou pesquisar (61%). Poucos veem as bibliotecas como espaços de lazer (12%) ou para passar o tempo (10%). Um outro dado que chama a atenção é que 33% afirmaram que “nada” os faria freqüentar uma biblioteca.

Para Adriana Ferrari, da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, que participou do painel como comentarista, os dados da pesquisa apontam “a complexidade de se formar leitores”. Mais do que promover o acesso, a biblioteca deve oferecer diferentes atividades como objetivo de cativar o público, configurando-se como um espaço dinâmico. “Quantas bibliotecas são organismos vivos dentro das suas comunidades?”, questionou.

Também foi destacado como aspecto importante para formação de leitores a atribuição de valor afetivo ao livro. A pesquisa mostra que, embora 75% afirmem que lêem por prazer, 55% associam a leitura à atualização cultural e conhecimentos gerais. “A leitura tem um valor utilitário para as pessoas”, concluiu Zoara.

O governo federal também esteve representado no painel, na figura de Maria Antonieta Cunha, diretora do Livro, Leitura e Literatura da Fundação Biblioteca Nacional, ligada ao Ministério da Cultura. Ela destacou o conceito de leitura enquanto bem comum que norteia a política pública de leitura, mas lamentou que “o poder público, nas suas várias instâncias, não tem essa clareza”, referindo-se aos prefeitos que se recusaram a aderir ao programa do MinC que possui como meta zerar o déficit de municípios sem biblioteca.

Alfredo Manevy, ex-Secretário Executivo do MinCMediador do encontro, Alfredo Manevy, professor da Universidade Federal de Santa Catarina e ex-secretário de Políticas Culturais do MinC, ressaltou o objetivo da iniciativa. “Não é possível construir avanços sem a mobilização de todos os setores da sociedade”, salientou. “O Brasil lê pouco e não articula corretamente as políticas de educação e cultura. Não alcançaremos desenvolvimento pleno sem a incorporação da leitura”.

Manevy observou também que, embora as políticas educacionais e culturais surtam efeito no longo prazo, há um “sentimento de urgência na sociedade”. Para ele, o aumento do poder aquisitivo da população ainda não se reverteu em acesso ao imaterial. E mencionou pesquisa do Datafolha sobre a chamada “nova classe média”. “As pessoas entrevistadas disseram que não se sentiam como classe média porque não tinham acesso a lazer e cultura”.



Fabiana Hiromi
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