Notícias

Portal entrevista Oded Grajew e Ricardo Young

Tamanho da fonte: A- A+ imagem_evento

Publicada: 13/06/2012

Educação precisa ser repensada na perspectiva de um novo modelo de desenvolvimento

Como parte da celebração aos seus 25 anos, o Cenpec propõe uma ação compartilhada com seus parceiros a fim de aprofundar conceitos, produzir conhecimentos e ampliar o debate sobre uma educação, tendo a sustentabilidade, em seu sentido amplo, como eixo, e contemplando as diferentes dimensões da vida: econômica, ambiental, social, cultural e política.

O conjunto de ações prevê o desenvolvimento de uma plataforma tendo a educação para a cidade de São Paulo como foco, que pretende instaurar um debate e processos de produção de conhecimento coletivo que, além de escutar os especialistas, dê voz à população e lideranças comunitárias.

Esta estratégia tem como base a crença de que nos tempos atuais só será possível alcançar uma educação de qualidade se envolvermos, de fato, todos os cidadãos e instituições que possam, cada qual a sua maneira, em seu território e campo de ação, colaborar para o desenvolvimento pleno de cada criança, adolescente e jovem.

Para falar sobre a importância da iniciativa, o Portal Cenpec entrevistou dois membros da governança da instituição, cujas trajetórias estão diretamente ligadas a movimentos e instituições concebidos em diálogo com valores da sustentabilidade, como corresponsabilização, cooperação e participação democrática.

Associado do Cenpec e idealizador da Rede Nossa São Paulo, foi Oded Grajew quem propôs ao Cenpec o desafio de pensar uma proposta de educação para sustentabilidade para cidade de São Paulo. Também integrante dessa instância, Ricardo Young foi presidente do Instituto Ethos, cuja missão é mobilizar e sensibilizar o setor privado para gestão socialmente responsável de seus negócios.

Em entrevista ao Portal Cenpec, eles falam sobre os entraves para uma efetiva priorização da educação nas políticas públicas e como as organizações sociais podem contribuir nesse sentido.

Partiu de você a ideia de o Cenpec elaborar uma proposta de educação para cidade de São Paulo. Por que pensar uma proposta de educação para sustentabilidade para cidade de São Paulo?

Oded Grajew (Site Ftas)Grajew: Estamos diante do desafio de mudar os paradigmas do modelo de desenvolvimento que temos atualmente. O atual modelo tem se mostrado insustentável; ele está dilapidando os recursos naturais, que são finitos; está aquecendo o planeta e destruindo a biodiversidade, essencial para o equilíbrio da vida no planeta; está aprofundando a desigualdade no mundo, aumentando a distância entre ricos e pobres. Então, é um modelo de desenvolvimento que está se mostrando, por todos os parâmetros, inclusive os técnicos e científicos, insustentável, ameaçando até a permanência da espécie humana no planeta.

Os modelos de educação que temos hoje, os parâmetros curriculares, a agenda de educação em geral tem preparado as pessoas para se saírem bem nesse modelo de desenvolvimento e não para um outro modelo. Os currículos, portanto, têm que ser todos revistos. Quanto mais excelência nesse modelo atual, pior, porque o aprofunda, o incrementa. É preciso mudar a visão de sociedade, de civilização, de desenvolvimento, do trabalho, da vida.

Uma coisa é dizer “é necessário mudar”; outra coisa é se debruçar sobre a questão e apresentar uma proposta, mostrando que é factível, porque assim as pessoas entendem e isso provoca uma reação no sentido de promover uma reflexão e provar que é possível. Por isso é tão importante essa iniciativa do Cenpec. Que tipo de cidadãos precisamos formar para que eles atuem como agentes desse novo modelo de desenvolvimento sustentável?

Falo em uma proposta de educação para cidade de São Paulo porque hoje é necessário produzir uma proposta para a cidade. É importante para que isso possa ser implementado pela nova gestão, porque estamos em ano de eleições. Como São Paulo é uma cidade grande, tudo o que acontece aqui tem o poder de ser sinalizado como uma referência, porque é uma das megacidades do mundo, a maior cidade do País.

A questão das cidades hoje é crucial na discussão sobre o modelo de desenvolvimento, porque é nas cidades que vivem mais da metade da humanidade e no caso do Brasil, 85% da população. Não se pode falar em modelo de desenvolvimento sem levar em conta as cidades; elas ocupam lugar central nesse debate. É nas cidades que mora a maioria da população, onde se geram as energias, onde se emitem os gases do efeito estufa, onde se consomem produtos que vêm das áreas rurais, da Amazônia, do Pantanal, dos biomas. O que acontece nas cidades é fundamental. Então, formar jovens olhando para outro modelo de desenvolvimento para ser aplicado em suas cidades tem um peso enorme na questão da sustentabilidade.

O Cenpec adotou como mote dos 25 anos a frase “Por uma educação para o nosso tempo”. Para pensar uma educação para o nosso tempo, o que é imprescindível? Que aspectos, questões devem ser levados em consideração nessa reflexão?

Ricardo YoungYoung: Estamos vivendo uma revolução de valores, uma consciência crescente dos limites de um modelo de desenvolvimento voltado para o mercado, o consumo, uma consciência de que nós precisamos nos conectar à questão do meio ambiente, de que desenvolvimento não significa crescimento, mas redução da pobreza, além da revolução tecnológica sem precedentes, que está definindo o conceito de cidadania.

Um aspecto imprescindível para uma educação para o nosso tempo é a educação para cidadania, através da radicalização do uso da tecnologia, da ampliação da participação, freqüência e convivência das pessoas nos processos políticos. Um segundo aspecto é uma realfabetização ou uma alfabetização em todos os conceitos ligados à sustentabilidade, dentro da concepção de desenvolvimento humano, social, uma reconexão do ser humano com a profundidade da vida e um novo marco ético, expresso na Carta da Terra. Esse é o conjunto de aspectos que uma educação para o nosso tempo deve trabalhar.

Qual a ética que permeia a nossa educação? Quais os valores? Esse bordão neoliberal de que “a educação precisa preparar as pessoas para o mercado” não leva em consideração que esse mercado está em discussão. Ninguém mais quer esse mercado consumista, competitivo, destruidor de meio ambiente, que exclui socialmente e assim por diante. Precisamos preparar os indivíduos para a sociedade. Isso significa que a educação tem que ser precursora de valores que fundamentem o caráter e a ação dos indivíduos na sociedade. Não adianta falar em educação sem valores. A educação precisa ter a ambição de trabalhar com valores fundamentais que façam com que os indivíduos não só convivam na sociedade, mas sejam agentes transformadores da sociedade na direção de um mundo sustentável.  


Qual o papel das organizações sociais no aprimoramento das políticas públicas de educação?

Grajew: Felizmente, aqui em são Paulo, por iniciativa da sociedade civil, temos hoje vários instrumentos que podem orientar a ação das organizações. Um deles foi a aprovação da mudança da lei orgânica que instituiu o Plano de Metas. É um instrumento muito importante, por meio do qual a sociedade pode cobrar metas concretas estabelecidas para cada área da gestão pública e para cada região da sociedade. É uma oportunidade de cobrar metas, acompanhar e dar visibilidade ao seu cumprimento ou não a cada processo eleitoral. É uma forma de pressão muito importante que a sociedade pode exercer.

Com a Lei da Transparência, qualquer cidadão, organização tem o direito de saber o que acontece na Prefeitura e nos diversos órgãos da administração pública. Então, visibilizar para onde estão indo os recursos públicos, como estão os indicadores educacionais é fundamental para cobrar melhorias, para ação da sociedade civil e é uma forma de contrabalançar o poder que os financiadores de campanha exercem.

Fora o papel de formular propostas e divulgar exemplos positivos que mostrem que é possível e como se faz. Por isso, é importante essa iniciativa de apresentar ideias, programas e planos e de sensibilizar para a implantação.

Young: Essas organizações podem atuar de forma complementar ao poder público, por exemplo, complementando o ensino regular oferecido pela rede pública por meio de programas que ajudem a qualificar e criar novas oportunidades de aprendizagem. As ONGs também podem contribuir na capacitação dos gestores e educadores, trazendo novas tecnologias, discutindo novas técnicas de ensino, experiências pedagógicas. Por último, podem também atuar como laboratórios de uma nova pedagogia, trabalhando em parceria com centros de educação.

O Cenpec pretende fomentar o debate sobre educação nas redes sociais. Embora a educação esteja sempre presente nos discursos, ela ainda não é efetivamente prioridade na política pública. Sinal disso na cidade de São Paulo é que o plano municipal de educação ainda não foi enviado para votação na Câmara. Por que ainda não alcançamos a mobilização necessária para essa priorização?

Grajew: A mobilização existe, é crescente. Mas São Paulo é uma cidade muito árida em termos de mobilização, por problemas de mobilidade (as pessoas têm dificuldades de ir a reuniões na Câmara, a debates) e tem a questão do poder público, que não facilita, não incentiva essa mobilização. Por exemplo, no [processo de construção do] plano municipal, foram muitos debates, encontros, muita gente se empenhou, participou. Então, para essas pessoas, qual o sentido de terem participado, se isso não é levado em consideração, se não é possível ver os resultados depois? Tanta gente se mobilizou, houve esforços físicos, intelectuais, e não há uma resposta do poder público para que isso vá adiante. Como não há esse retorno do poder público, as pessoas que dispõem de recursos, inclusive os próprios políticos, acabam buscando soluções individuais, colocando seus filhos em escolas particulares e se afastando das questões da escola pública, que deixam de fazer parte da sua vivência.

Acredito que haverá uma vontade muito maior de melhorar a qualidade da educação – e da saúde pública também – no dia em que os políticos e governantes usarem os serviços públicos.
Fora isso, no caso da priorização no orçamento, a maioria dos políticos depende muito do financiamento de campanha para ser eleito, que é feito por aqueles que têm interesse em abocanhar parte dos recursos públicos. Então, a maioria dos políticos, ao invés de estar a serviço dos interesses públicos, está a serviço de quem financia as suas campanhas, porque disso depende a continuidade de suas carreiras políticas. Não são todos os políticos, felizmente, mas é a maioria e é a maioria que acaba decidindo. Crianças, adolescentes, usuários de serviços públicos não financiam campanhas.



Comentários(2)

Observação: as opiniões aqui publicadas são de responsabilidade apenas de seus autores. Os números de IP dos responsáveis pelos comentários estarão à disposição de vítimas de eventuais ofensas veiculadas neste espaço.

O que fazemos

  • Assessoria as políticas educacionais, sociais e culturais
  • Formação de agentes educacionais, sociais e culturais
  • Implementação de programas e projetos
  • Produção e disseminação de conhecimento

Como fazemos

Nossas Redes

Abong Rede Nossa São Paulo Rede primeira infância Todos Pela Educação