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As possibilidades e alternativas de inserção para os jovens no mercado de trabalho
Dada a presença marcante da problemática do trabalho entre a juventude, um primeiro passo para a elaboração de programas e políticas que visem solucionar a questão é mapear quais as possibilidades atuais de inserção nesse universo do trabalho para os jovens.
Pelas vias tradicionais, a principal opção que se apresenta é o trabalho assalariado. Apesar da exploração a que são submetidos os jovens mesmo no mercado de trabalho formal e da frequente ocupação em postos que pouco contribuem com o crescimento pessoal, alguns especialistas defendem que o foco dos programas e ações do governo deve estar aí: na geração de empregos que assegurem os direitos trabalhistas e previdenciários.
Para combater o desemprego juvenil, o governo federal vem apostando prioritariamente na capacitação profissional, investindo massivamente na ampliação da sua rede de escolas técnicas e no fortalecimento das estaduais. De acordo com o Mec, ao fim deste ano serão cem novas unidades só na rede federal, sendo um terço delas concentrada no Nordeste. Até 2010, a provisão de recursos para esse fim supera a cifra de R$1 bilhão.
De acordo com a Pesquisa Nacional de Egressos dos Cursos Técnicos da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica (2003-2007) realizada em 153 instituições deste tipo no País, o governo está acertando o alvo. O levantamento aponta que o índice de empregabilidade entre os ex-alunos entrevistados é de 72%. Desses, 49% afirmaram estar atuando na área em que se formaram durante o curso técnico. Em termos de satisfação em relação à remuneração, a avaliação dos entrevistados também foi positiva. Dentre os que trabalham, 59% acreditam que seu salário está na média do mercado e 11% acreditam receber mais que a média.
"No Brasil, ainda predomina a cultura do "bacharelista" com a supervalorização do ensino superior em detrimento à formação profissional. Isso tem a ver com a nossa história das relações de trabalho. Em países desenvolvidos não há nenhuma vergonha em ser operário", analisou o secretário de educação profissional do MEC, Eliezer Pacheco, à época da divulgação da pesquisa.
| LEI DO APRENDIZ A Lei do Aprendiz, aprovada em 2000 e regulamentada em 2005, determina que empresas de médio e grande porte devem ter entre 5% e 15% de aprendizes, que são jovens de 14 a 24 anos que freqüentam a escola ou um curso de formação profissional. O aprendiz desenvolve suas atividades na empresa em horário complementar aos estudos e é remunerado com o salário mínimo vigente proporcional à carga horária de aprendizagem diária, com direito a férias, 13º salário e demais benefícios. Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, o número de jovens aprendizes contratados desde janeiro deste ano foi de 151.604, mais que os 130.789 contratados durante todo o ano de 2008. Mas o número ainda está longe da meta estabelecida pelo governo de ter, até 2010, 800 mil aprendizes no mercado de trabalho. |
Dentro dessa linha de investir na qualificação profissional do jovem como forma de garantir a ele uma melhor inserção no mercado de trabalho, o Formare vem atuando há mais de 20 anos. Criado pela Fundação Iochpe, o programa consiste na oferta de cursos de educação profissional para jovens de 15 a 17 anos de famílias de baixa renda, em parceria com empresas de médio e grande portes. As aulas são ministradas nas instalações das empresas pelos seus próprios funcionários, que atuam como voluntários.
"A proposta Formare de formação de jovens reconhece e explora o potencial educativo de uma empresa. Sua cultura organizacional, processos de produção, práticas de gestão mescladas a histórias de vida e trajetória profissional de seus funcionários constituem um ambiente privilegiado de ensino-aprendizagem", explica a coordenadora pedagógica do programa, Zita Pimentel.
Os cursos Formare apresentam uma carga horária mínima de 800 horas, ocupada tanto por disciplinas técnicas quanto humanísticas. De acordo com Zita, a ideia do programa é proporcionar a esses jovens, em processo de construção de suas identidades, experiências de trabalho que lhe possibilitem explorar potenciais ainda desconhecidos por ele.
"A preocupação principal é a oferta de uma atividade ocupacional que permita uma visão mais ampla das tarefas a serem executadas, maior flexibilidade funcional, o trabalho em grupo, o exercício da iniciativa, a busca pelo aperfeiçoamento profissional. Este é um trabalho que dá sentido a cada jovem, que o fortalece como sujeito e cidadão", acredita.
Caminhos alternativos
Diante das incertezas e agruras do mercado de trabalho formal, alguns apontam o empreendedorismo, cooperativismo e associativismo como formas alternativas de geração de renda para os jovens.
Em sua tese de doutorado, a socióloga Marilena Nakano se dedicou ao estudo de três empreendimentos de economia solidária (cooperativas da região do ABC organizadas a partir de empresas em processo de falência assumidas pelos seus funcionários), geridos por jovens e adultos.
Para a pesquisadora, a participação de jovens nessas iniciativas produziu ganhos para todos os envolvidos. "Havia nesses empreendimentos uma enorme clareza de que a fábrica não teria futuro sem que os jovens fossem incorporados. Essa preocupação se concretizava em ações que iam da incorporação dos jovens às instâncias de decisão, adentrando pelas questões de democracia no mundo do trabalho, até a garantia da formação por meio de recursos financeiros, não vinculada às necessidades da produção, mas sim às dos próprios jovens", destaca.
Além disso, a partir das relações e dos valores cultivados nesse ambiente de trabalho, esses jovens "aprenderam a construir laços de solidariedade, além da família, no interior de grupos de amigos, na escola, na igreja, abrindo novas possibilidades de diálogo que os adultos pouco investem ou investiram", observa Marilena.
Com base nos resultados de seu estudo, a pesquisadora defende a disseminação desse tipo de empreendimento. "Penso que tornar essas experiências visíveis e aprender com elas pode ajudar na construção de novas possibilidades de inserção dos jovens no mundo do trabalho, mais democráticas e solidárias, onde adultos e jovens encontrem espaços de dialogo e de busca de saídas", afirma.
Para alguns especialistas, apostar em empreendedorismo e cooperativismo como soluções para o desemprego juvenil é um erro, na medida em que impõem aos jovens o peso de uma série de responsabilidades que podem ser incompatíveis a essa faixa etária.
"O divertimento e uma certa irresponsabilidade são naturais e são necessárias nesse momento da vida. Não faz sentido trocar os fins de semana de diversão por jornadas extensas, que são necessárias no trabalho autônomo", considera o professor de Economia da Universidade Estadual de Campinas, Cláudio Dedecca.
Para o economista do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), André Urani, trata-se de garantir as mesmas oportunidades, para ricos e para pobres. "Cooperar é ótimo, mas a pessoa tem que competir também e tem que ser preparada pra isso. E se a pessoa não quiser cooperar? E se ela não for boa nisso?", questiona.
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